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sábado, 11 de setembro de 2010

O albúm de fotografias.

As cinzas da noite espalhavam em brasa no quarto de Cícera.

Toda a solidão de uma vida oprimida entre suas coxas lhe ardia. A televisão a convidava para comprar uma nova marca de detergente, sabonete e palha de aço. Mas, para viver a sua vida nunca, never more. Casara cedo, muito jovem e tola. Não conhecia nada da vida. Cria no noivo, experiente e de olhar interessado, penetrante... Acreditava que ele poderia fazê-la a mulher mais feliz do mundo. Não o conseguiu. Teria sido sua culpa? Há anos, reclusa à vida doméstica: passava, encerava, cozia, pregava botões e cerzia as meias. Em troca de quê? Todos os dias, rádio na cozinha, lamentos sonoros de amor eterno respingados a óleo quente da frigideira, comida no forno, lavagem de cuecas e muita, muita, muita vista grossa...

À tardinha, com almofadas embaixo dos cotovelos, reclinava-se à janela sisuda a comparar a sua vida com a dos passantes. A visão de uma mulher magra e jovem lhe era imperdoável, capaz de estragar até o fim de semana. Roia as unhas. Revolvia gavetas, revolvia gavetas, procurando nem ela sabia o quê. Chorava nos portais da cozinha. Chorava por detrás das portas. Chorava. Cheirava esmaltes. No banho, perdia horas se ensaboando, se esfregando, catando o surro, sensação de sujeira, muita sujeira. Cuidava das plantas no jardim, matava formigas, caçava baratas, limpava ratoeiras...

Um dia, recebeu um telefonema diferente: seu marido sofrera um grave acidente. Morrera! Solicitavam-na para fazer o reconhecimento do corpo. Desligou o telefone e poisou-o no console. Não chorou. Não sabia o que pensar. Não sabia o que fazer. Não sabia para onde ir. Não sabia a quem procurar. Não sabia nada de coisa alguma.


Foi ao quarto, ficou de quatro e pegou embaixo da cama uma encadernação vermelha amarrada com uma fita puída. Abriu-a. Era um álbum de fotografias. Pequeno, feito de cartolina, comido por cupins, cada página separada por papel manteiga amarelado. As fotos, à medida que passava as páginas, caíam pesadas. Ela as recompunha. Fitava-as. Não, não as reconhecia, não reconhecia nada e nem ninguém. Sorriu aliviada e gargalhou com uma estranha sensação de liberdade. (Raymundo Netto)

O último salto.

Ela fechou os olhos e ergueu os braços para o céu cinza, esperando a chuva chegar. Ficou daquele jeito por exatamente 3 minutos até sentir a primeira gota, e sorriu. Continuou sorrindo enquanto as gotas finas engrossavam, ensopando os cachos leves de seu cabelo e seu vestido azul. Tentou abrir os olhos, mas as gotas de chuva escorriam pelo seu rosto e caiam salgadas nos olhos, fazendo arder. Abaixou os braços para limpar o sal das gotas. Quando abriu os olhos, parecia que o céu tinha decido até ali junto com a chuva. Olhou pra baixo e fitou as ondas agitadas. Ela também estava agitada. Era tudo cinza e pesado a sua volta. O céu estava cinza e pesado, a chuva começava a ficar pesada, assim como seus cabelos encharcados e seu vestido azul. Pensou ter ouvido alguém gritar seu nome na tempestade, mas sabia que não. Ninguém poderia ter seguido ela até ali. Aspirou o ar bem fundo até inundar seus pulmões de ar. O cheiro da água salgada e chuva era delicioso. Soltou o ar e aspirou novamente. Ia sentir falta do cheiro salobre de mar. Soltou e aspirou mais uma vez, na esperança de prender aquele cheiro lá dentro. Ouviu seu nome no vento mais uma vez. Não era sua imaginação. Olhou para trás e viu um borrão de luz em meio a torrente de água que caia do céu. Talvez alguém a tivesse seguido. O vento rugia em seus ouvidos, e a confusão de sons era grande.
Aspirou uma última vez, o máximo que pode, e saltou. Foi contra o impulso de fechar os olhos. Queria assistir os 20 metros da queda.

Segurou as barras do vestido que teimavam em subir com o vento.

A pele ficou dormente quando mergulhou nas águas geladas do oceano. Pelo frio e pela força do impacto. Com o choque acabou aspirando muita água salgada que ardeu na garganta. Já não via muita coisa lá em baixo. A água espumava ao seu redor, e os olhos também ardiam. No último segundo sentiu medo. Quis nadar de volta à superfície, quis viver.

Uma onda desavisada a arremessou contra o penhasco, e ela não viu mais nada.

Em questão de segundos a chuva lá em cima cessou, o ventou parou de rugir e as ondas se acalmaram. A natureza do penhasco fez seu minuto de silencio. Lá de cima se via apenas o vestido azul entre as ondas vermelhas de sangue.
Então o vento voltou a soprar e as ondas se agitaram novamente. E as nuvens cinzas de chuva se distraíram por apenas um segundo, quando o sol aproveitou para lançar um raio de luz para iluminar as lágrimas de quem fora deixado para trás. (Bruna Luizi Coletti)




sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Friedrich Nietzsche.

Friedrich Nietzsche, nasceu em 1844 na Alemanha numa cidade conhecida por Röcken. A sua família era luterana e o seu destino era ser pastor como seu pai. Nietzsche perde a fé durante a adolescência, e os estudos de filologia combatem com o que aprendeu sobre teológia: Durante os seus estudos na universidade de Leipzig, a sua vocação filosófica cresce. Foi um aluno brilhante, dotado de sólida formação clássica, e aos 25 anos é nomeado professor de Filologia na universidade de Basiléia.

Durante dez anos desenvolveu a sua filosófia em contacto com pensamento grego antigo. Em 1879 seu estado de saúde obriga-o a deixar de ser professor. Sua voz ficou inaudível. Começou uma vida errante em busca de um clima favorável tanto para sua saúde como para seu pensamento (Veneza, Gênova, Turim, Nice, Sils-Maria...)

Em 1882, começa a escrever o Assim Falou Zaratustra. Nietzsche não cessa de escrever com um ritmo crescente. Este período termina brutalmente em 3 de Janeiro de 1889 com uma "crise de loucura" que, durou até à sua morte, coloca-o sob a tutela da sua mãe e sua irmã.

Estudos recentes atribuem a sua morte um cancro do cérebro, que eventualmente pode ter origem sifilítica. Sua irmã falseou seus escritos após a sua morte para apoiar uma causa anti-semita. Falácia, tendo em vista a repulsa de Nietzsche ao anti-semitismo em seus escritos.
O sucesso de Nietzsche, entretanto, sobreveio quando um professor dinamarquês leu a sua obra Assim Falou Zaratustra e, por conseguinte, tratou de difundi-la, em 1888. Muitos estudiosos da época tentaram localizar os momentos que Nietzsche escrevia sob crises nervosas ou sob efeito de drogas (Nietzsche estudou biologia e tentava descobrir sua própria maneira de minimizar os efeitos da sua doença).



Fonte: Pensador.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

E um dia você aprende que..

Depois de algum tempo você aprende a sutil diferença entre segurar uma mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se e, companhia não quer sempre dizer segurança. E você começa a aprender que beijos não são contratos, e presentes não são promessas. E você começa a aceitar suas derrotas, com sua cabeça erguida e seus olhos adiante, com a graça de adulto, não a tristeza de uma criança. E você aprende a construir todas as estradas hoje, porque o terreno de amanhã é demasiado incerto para planos, e futuro tem costume de cair em meio do vôo. E depois de um tempo você aprende que até mesmo a luz do sol queima se você ficar exposto por muito tempo. Então você planta seu próprio jardim e enfeita sua própria alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que você realmente pode resistir... que você realmente é forte e que você realmente tem valor. E você aprende e aprende... com cada adeus, você aprende. (Veronica A. Shoffstall)